quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Perseguição


Era um dia aparentemente comum. Eu tinha ficado até mais tarde na rua, no dia anterior, participando de um protesto contra o aumento das passagens de ônibus, e agora, no sábado, era por volta das nove da manhã e eu estava no ponto de ônibus, prestes a voltar para casa.
No sábado, aqui como em todos os lugares, passam menos ônibus do que em dias normais. Por isso, eu fiquei no ponto por um tempo um pouco maior do que normalmente ficaria. Havia meia dúzia de pessoas ao meu redor. E então, um mendigo veio andando pela calçada.
Era um mendigo como qualquer outro, mas algo no jeito dele me chamou a atenção. Ele viera andando normalmente até a altura do ponto de ônibus, mas chegando perto ele parou e ficou por ali, olhando ao redor. Eu evitava olhar muito, para não chamar a atenção dele. Mas como se lesse meus pensamentos, ele veio e se sentou ao meu lado, no banco do ponto.
Fantástico. Eu tentei não ser desesperada igual a certas pessoas que conheço (ia citar o nome aqui, mas depois elas vão ler e nunca mais me darão presentes de Natal - espera, elas nunca me deram presentes de Natal), e pensei que, contra tudo o que meu instinto psicótico e psicopata dizia, aquele cara era apenas um mendigo que resolvera se sentar do meu lado em uma escolha aleatória, e que ele tinha tanto direito de estar ali quanto eu. Por outro lado, o cheiro que vinha dele não era nada agradável; por isso, eu contei mentalmente até dez e me levantei. Se fosse sentar em outro banco ia ficar muito óbvio que estava fugindo dele, por isso, resolvi ficar em pé. E, cinco segundos depois, ele se levantou também e ficou de pé ao meu lado.
Meu primeiro pensamento foi "ok, pode ser só mais uma coincidência". Mas quando olhei ao meu redor, só havia mais uma pessoa além de mim no ponto, fora o mendigo, e ninguém por perto. Por isso, quando essa outra pessoa fez sinal para um ônibus que vinha - e que não era o que eu ia pegar - eu fiz sinal também. Por via das dúvidas, era melhor dar o fora dali. Podia descer no primeiro terminal e pegar o ônibus certo.
Mas quando o ônibus parou e eu fui entrar, o mendigo foi também. Ótimo, pensei, ele não vai para o mesmo lugar que eu. Deixei ele entrar na minha frente, fingi que ia entrar também, e na última hora desci. O motorista deve ter achado que eu era louca, mas tudo bem. Tinha me livrado de um possível perseguidor. Eu sou um gênio.
Só que, na hora em que as portas do ônibus iam se fechar, o mendigo falou algo pro motorista e pulou para fora.
Agora qualquer pensamento paranóico que eu tivesse era muito justificável. Aquele cara definitivamente parecia estar querendo ir para aonde eu fosse. Logo depois, o meu ônibus passou, eu fiz sinal e subi. Para a minha não-surpresa, o mendigo subiu atrás de mim.
Ok, sem pânico. Não havia muita gente no ônibus, mas havia o suficiente. Eu me sentei em um banco que já tinha outra pessoa, sentada do lado da janela. Na hora de passar pela roleta, o mendigo tirou um bolo enorme de notas, no meio do qual se viam notas de cinquenta e de cem, para pagar a passagem de dois e trinta. Bem, se ele queria me roubar, corria o risco de ser roubado por mim, porque eu tinha menos de cinco reais no bolso. Ele passou pela roleta, olhou para mim com uma cara de maluco - esqueci de comentar que ele tinha um ar de completo maluco - e foi se sentar em um dos bancos lá de trás.
A viagem transcorreu normalmente, e eu acabei me esquecendo do maluco. O ônibus estava quase vazio. Quando estávamos quase chegando no terminal, a pessoa ao meu lado desceu e eu, muito burra, fui para o lado da janela. Não havia se passado dez segundos, e o mendigo saiu de onde ele estava, lá atrás, e se sentou ao meu lado.
Muitas coisas passaram pela minha cabeça naquele momento, mas as que acabaram se destacando foram as de que, se ele se aproximasse um centímetro a mais - ele estava mais próximo do que o necessário e meio inclinado para cima de mim, me olhando com cara de doido - eu agarraria seu pescoço e lhe daria uma mordida que separaria sua cabeça do corpo, sem me importar com a possibilidade de morte instantânea por envenenamento; e a de que, alternativamente, eu poderia levantar e começar a gritar para que ele se afastasse antes mesmo que ele fizesse alguma coisa. Mas não fiz nada disso, porque outra ideia, mais inteligente e sensata - ou não - me ocorreu.
Antes de tudo, eu olhei para o cobrador, que já olhava para mim, percebendo minha situação. Conversamos telepaticamente e ele me garantiu que, se o mendigo maluco tentasse alguma coisa ali no ônibus, ia se arrepender. Mas ele tentar algo ali era a menor das minhas preocupações: ele podia muito bem me seguir depois que eu descesse, pegar o mesmo ônibus que eu no terminal, descer na mesma rua que eu e fazer sei lá o que. Eu tinha que fazer ele perceber que escolhera a vítima errada. Que, antes de perseguir uma frágil e inocente garotinha, é sempre bom ter a certeza de que ela não é uma louca com instintos extremamente violentos e que passa as noites a imaginar longas sessões de tortura e milhares de assassinatos.
Por pura coincidência, no dia anterior eu levara marmita para a faculdade, e a vasilha estava agora na minha bolsa, assim como os talheres - um garfo e uma faca. Sorri maniacamente quando lembrei disso. Muito tranquila, sentindo uma satisfação tão grande que me dava vontade de rir alto, abri a bolsa - o mendigo olhava para dentro dela, ansioso, como se esperasse que algo mágico fosse surgir de dentro - e tirei, de dentro da vasilha, a faca. Levantei a faca até a altura do meu rosto - um gesto imprudente, mas confiante, pois sabia que o susto dele seria maior do que o impulso de tomá-la de mim - e a abaixei de novo, a escondendo por baixo da bolsa, mas claramente apontada para ele.
Nem ensaiado poderia sair melhor. Logo que eu levantara a faca ele dera literalmente um pulo para trás, e agora estava praticamente fora do banco, olhando para mim com um ar assustado. Eu sorria o tempo todo - devia estar parecendo uma completa louca psicopata. Sinceramente, eu estava torcendo para que ele insistisse em me perseguir. Eu teria umas surpresinhas muito interessantes para ele.
Mas, para a minha decepção, quando chegamos ao terminal, ele desceu primeiro do que eu, quase correndo, e sumiu. Fui encontrá-lo meio escondido em uma das lanchonetes, e quando passei por trás dele, ele deu um pulo e se virou para mim, com um ar assustado. Eu sorri para ele e pus a mão na bolsa, puxando o cabo da faca. Dei a volta no terminal várias vezes, fingindo que ia pra outro lugar, coloquei um casaco por cima da blusa - estava esfriando mesmo - e só quando tive certeza de que tinha conseguido despistá-lo fui para a fila do meu ônibus. De onde estava, podia ver ele, andando de um lado para o outro, perdido. Mesmo que olhasse na minha direção, estava muito longe e eu estava com outra roupa, então ele não me reconheceria. Logo meu ônibus chegou, e subi. Fui embora sã e salva, com meu lado psicopata decepcionado, e meu lado normal aliviado e me dizendo que eu era completamente louca.

Um comentário:

Unknown disse...

Adorei o conto. Prende o leito. Parabéns.