segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Restaurante

Essa história, por mais absurda que pareça, aconteceu de verdade há algum tempo, com um conhecido meu.
A pessoa em questão vendia produtos de limpeza para restaurantes, lanchonetes, enfim, esses lugares que precisam estar muito limpos. E em mais um dia comum de trabalho, ele foi bater na porta de um bar-restaurante muito conhecido aqui na orla norte da Grande Vitoria, o qual não citarei o nome porque não quero ser processada.
Enfim. Ele foi atendido por um funcionário do restaurante, que o mandou entrar e esperar na cozinha.
A cozinha.
Vamos lembrar que não estamos falando de uma cozinha qualquer. Aquela era a cozinha de um grande restaurante na beira da praia, muitíssimo conhecido e que no verão recebe centenas de turistas, que ali comem felizes, contentes e confiantes. A cozinha de um lugar assim deve ser impecável, certo?
Certíssimo, mas havia uma grande distância entre o que ela devia ser e o que ela realmente era.
A cozinha era toda revestida por azulejos que um dia haviam sido brancos, mas que estavam pretos de sujeira. Havia crostas de gordura e sujeira pelas paredes. Restos de comida estragada em cima da mesa. O chão estava ainda mais imundo.
Nisso, veio a dona (ou gerente, não lembro) do restaurante conversar com meu amigo. Ele explicou que estava ali para vender produtos de limpeza, que trabalhava para uma firma grande, especializada nesse tipo de coisa e etc. Mas a mulher nem deixou ele terminar de falar.
— Nem adianta, aqui a gente não gasta dinheiro com essas coisas não.
O essas coisas se referia a produtos de limpeza adequados a cozinhas industriais.
— Então vocês usam produtos de limpeza comuns? - meu amigo não se surpreendeu, porque na orla do Espirito Santo, principalmente no norte, esse tipo de "descaso" é inacreditavelmente comum. Ele começou, então, a falar sobre como seria muito mais econômico e vantajoso usar os produtos que ele estava vendendo, além de atenderem às normas da fiscalização - coisa que os produtos comuns de supermercado não faziam.
— Nããããoooo. - a dona do restaurante explicou - A gente não compra nada desses produtos de limpeza, não. A gente não gasta dinheiro com essas besteiras. A gente pega essa gordura que sobra e faz sabão com ela. É isso que a gente usa no restaurante inteiro.
Agora, se você for uma pessoa com o mínimo senso de higiene, deve estar fazendo a mesma cara que meu amigo fez na hora, e que eu fiz quando ele me contou.
Vamos recapitular, porque talvez não tenha ficado muito claro: um dos restaurantes mais conhecidos da região possui uma cozinha imunda, e a própria dona ou gerente admitiu que não usa produtos de limpeza adequados "porque é besteira", e ainda usa "sabão caseiro" para lavar a louça, o chão, as mãos e sei lá mais o que.
Talvez você esteja se perguntando como é que a fiscalização não fecha esse lugar?
Meu amigo se fez essa pergunta também. E comentou com a dona:
— Mas vocês não se preocupam com a fiscalização? Se o fiscal da vigilância sanitária aparecer aqui...
A mulher riu. Não é figura de linguagem minha. A mulher literalmente riu.
— Fiscal? Isso não existe aqui não! Eu trabalho aqui a X anos (não lembro quantos anos ela falou) e NUNCA apareceu um fiscal aqui.
Eu não sei a que ponto ela estava exagerando, mas sei que existe uma grande chance de não haver exageros, por causa de outras situações parecidas que eu já presenciei por aqui, e que talvez conte em outra ocasião. Não há fiscalização na orla norte do Espirito Santo. Claro que se alguém perguntar na prefeitura, vão dizer que tem. Oficialmente tem. Mas na verdade não tem. Não mesmo.
Resumindo a história: meu amigo horrorizado (porque ele ia ali direto), eu horrorizada (porque eu ia ali direto), meus amigos horrorizados (porque eu contei para eles e eles iam ali direto), e agora vocês horrorizados porque talvez tenham ido ali e não sabem. Horrorizemo-nos juntos.

* * * * *

E agora você, amiguinho que mora ou vem passear no Espirito Santo, sabe que quando for em um restaurante da orla, existe uma boa chance de que a cozinha dele tenha crostas de gordura na parede e que seu prato seja lavado com banha de porco. Bom apetite.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

07-Ghost para Iniciantes

Esse texto é sobre o anime/manga 07-Ghost, pelo qual eu estou profundamente apaixonada. Não possui spoilers, podem ler sem medo =)



Ambientado em um mundo de fantasia gótica, 07-Ghost conta a história de Teito Klein, um ex-escravo de 15 anos órfão, que  não tem nenhuma lembrança de seu passado e que está prestes a se formar como o melhor estudante da academia militar. Porém, em uma inesperada reviravolta do destino, ele acaba recuperando uma importante memória, se torna um inimigo do Império de Barsburg e passa a ser perseguido pelo exército.
A descoberta de Teito sobre sua verdadeira natureza e seu subsequente desejo por vingança envolvem ele nos assuntos dos próprios Deuses, quando ele se encontra no centro do conflito entre o shinigami Verloren e os misteriosos seres de luz enviados pelo Céu para se opor a ele: os 07 Ghost. Para lutar contra o Império, Teito conta com a ajuda dos bispos da Igreja e de seu grande amigo Mikage.
(Baseado no resumo do mangahere.com, adaptado)



Ok, esse é mais ou menos o "resumo oficial" de 07-Ghost. Para quem quer saber um pouco mais, aqui vai algumas informações e comentários adicionais, sem spoilers.

Que tipo de história é 07-Ghost?

A parte óbvia é que 07-Ghost é fantasia (se passa em um mundo fantástico, onde as pessoas lutam usando um poder chamado Zaiphon, existem deuses, exitem dragões que falam etc). Também é de ação, aventura e drama. Isso você percebe só de olhar a abertura do anime.



Um pouquinho menos óbvio, mas que dá pra sacar logo no primeiro episódio, é que é shonen-ai (relacionamentos entre meninos) (não é gay!). 07-Ghost praticamente só tem personagens masculinos, então todas as interações se dão entre eles (consequentemente, não existe romance na história, mas muito "bromance"). A história foca profundamente na questão da amizade e do companheirismo.



Agora, não é nada fácil encaixar ele em um público-alvo. Eu já vi classificações que vão desde josei (para mulheres adultas) até shonen (para meninos). Como assim cara?
Isso acontece porque 07-Ghost é uma mistura muito louca de gêneros. À primeira vista, pode-se pensar que se trata de um shojo (para meninas), por causa das partes fofinhas e engraçadas, do foco nos sentimentos, do shonen-ai e dos traços belíssimos. Mas apesar disso, esse manga tem uma quantidade de violência, de batalhas, de tecnologias e de explosões que decididamente o encaixam no shonen. E a forma extremamente profunda como os personagens são desenvolvidos, a seriedade de certos assuntos, os relacionamentos familiares e as profundas reflexões filosóficas podem classificá-lo como um manga voltado para um público mais adulto.
Então, se você olhou para o desenho bonitinho e os olhos redondos e achou que era uma história adolescente para garotas, você está errado. E se você olhou para as naves gigantes, para as cenas de lutas e para os monstros e achou que era para meninos, você também está errado.



07-Ghost é sobre sentimentos e sobre amizade, sobre vingança e perdão. É sobre a solidão e o companheirismo. É sobre confiança e fidelidade, sobre medos e coragens. Sua história é agridoce, sem muita preocupação com finais felizes ou mundos cor-de-rosa. Mas toda essa seriedade é equilibrada por cenas totalmente não-sérias e engraçadíssimas, muitas vezes beirando o ridículo. Então na maior parte do tempo não é uma história pesada ou difícil de ler.
Comparando com outros mangas, eu diria que ele lembra um pouco Blood-C ou Ayashi no Ceres em estilo de história (eu sei que esses dois são radicalmente diferentes um do outro, mas os dois têm elementos em comum com 07-Ghost).

O anime ou o manga?

Se você só vai acompanhar um dos dois, eu recomendo fortemente que acompanhe o manga (que terminou no fim do ano passado). A história é mais consistente, não existem falhas nem fillers, e as coisas são melhor explicadas (e para as meninas, tem mais fan-service). Além disso, o anime só vai até mais ou menos o capítulo 25 do manga (são 99 capítulos), então se você só ver o anime vai ficar sem entender muita coisa.
Mas se você vai ver os dois, então você DEVE ver primeiro o anime, e só depois ler o manga. Porque o anime é fantástico (um dos melhores que já vi), mas o manga é muito melhor, tão melhor que faz você ver milhões de defeitos no anime. Além disso, é mais fácil de entender as cenas de luta no anime, e elas são fantásticas.

Quem NÃO deve ler/assistir 07-Ghost?




Ok, prestem atenção porque isso é muito importante: se você ODEIA ver personagens masculinos se abraçando e dizendo "você é tudo para mim" e acha que tudo é "coisa de viado", VÁ EMBORA AGORA! Esse não é o manga para você. Mas Vitoria você disse que não é gay! E não é mesmo, os personagens são héteros até demais (destaque para o Frau, que é um bispo tarado viciado em pornô). Acontece que as autoras, antes de 07-Ghost, costumavam escrever fanfics yaoi. Em 07-Ghost, apesar de não haver nenhum tipo de romance entre os personagens, sobram fan-services com direito a cenas comprometedoras, declarações incomumente sentimentais, piadas internas sobre o "excesso de amizade" entre alguns personagens, e posteres oficiais pra lá de "estranhos" (e é tudo muito pior - ou melhor hehehe - no manga do que no anime). Então, se você não suporta esse tipo de piada ou te incomoda ver muito foco na amizade entre dois homens, delete esse anime e vá ver uma luta de MMA.

Fan service que aparece na história =)



Fan service que NÃO aparece na história (wtf esse pôster)

Além disso, se você não gosta de se emocionar, esse não é o manga para você. Porque você vai chorar. Mas Vitoria eu sou super insensível eu nunca - Você vai chorar. Muito. Muito mesmo. Ele não é uma "novela mexicana" com situações excessivamente dramáticas e exaustivas, mas ele foca nos sentimentos dos personagens de tal forma que você vai rir quando eles quiserem que você ria e chorar quando eles quiserem que você chore. Não adianta. Eu sou fria como uma pedra, mas lágrimas de verdade subiram aos meus olhos quando... Veja e você saberá ;)
Por fim, se você está pensando em ler esse manga porque viu os posteres e algumas capas e está achando que é yaoi ou que existe a menor chance de rolar alguma coisa entre os meninos, esqueça. As autoras adoram provocar a nossa imaginação, mas eles são todos héteros (snif snif).

Isso abre um capítulo mas não tem nada a ver com a história...


Os 07 Ghost *-*

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Quase Incêndio

Estava eu aqui no computador, selecionando filmes para assistir, quando comecei a sentir um cheiro que parecia pão queimado. A princípio ignorei, mas o cheiro foi aumentando e aumentando, e eu gritei para a minha mãe, dizendo que alguma coisa estava queimando. Eu sabia que não tinha nada no forno, mas o cheiro estava ficando muito forte. No nível preocupantemente forte.
Como esperado, mamãe gritou de volta dizendo que não tinha nada no forno. Ok, sem motivos para preocupação então. Voltei a procurar filmes para baixar (que eu provavelmente nunca assistiria), quando de repente percebi que o cheiro de queimado não só continuara, como chegara ao nível intolerável. Definitivamente, alguma coisa muito errada estava acontecendo.
Saí do quarto para investigar, e quando cheguei no corredor, ele estava cheio de fumaça (como ninguém mais tinha reparado nisso, eu não sei). Só que a fumaça não vinha da cozinha, e sim do banheiro. Corri para lá e vi que ela estava entrando pela janela.
A primeira coisa que pensei obviamente foi fogo. Eu moro no sétimo andar, e aprendi na escolinha que a fumaça sempre sobe, então em algum dos seis andares abaixo do meu devia haver um apartamento com um pequeno problema de incêndio envolvendo pães queimados. E pela quantidade de fumaça, eu já conseguia visualizar labaredas saindo pelas janelas.
Gritei para o pessoal aqui de casa que tinha um apartamento pegando fogo, e todo mundo correu para as janelas, procurando algum indício de fumaça. E mais uma vez, quem viu primeiro fui eu (eu sou demais): de alguma varanda abaixo do terceiro andar, saía uma quantidade significativa de fumaça. Não dava para ver exatamente de qual andar ela vinha, mas me parecia ser do primeiro, embora cada um aqui opinasse um andar diferente.
Mais uma vez, eu estava certa: a fumaça vinha do primeiro andar. Ótimo, pensei, algum vovô esqueceu a comida no forno e a essa hora deve estar desmaiado no sofá da sala, intoxicado - isso na melhor das hipóteses. Mas apesar de toda a fumaça, não havia nenhum indício de fogo, o que, eu imaginava, era um bom sinal.
Papai desceu correndo para o primeiro andar, para ver o que estava acontecendo. Genialmente, ele desceu pelo elevador. Se alguém aqui já teve algum treinamento contra incêndio (ou tem o mínimo de bom senso) sabe que em caso de incêndio nunca se deve usar os elevadores, mas ok. Ele desceu pelo elevador. Quando as portas se abriram no primeiro andar, ele se deparou com um corredor completamente tomado pela fumaça e um cheiro de queimado insuportável.
Pensem bem: eu moro no sétimo andar, e o corredor do meu apartamento estava cheio de fumaça. Não é difícil imaginar o estado em que ficou o primeiro andar, onde estava a origem do problema. Meu pai viu como estava a situação ali, e então desceu para o térreo (eu teria tentado arrombar a porta, mas felizmente ele não fez isso). Chegando do lado de fora do prédio, ele encontrou ninguém menos do que o dono do apartamento de onde vinha a fumaça. Se seguiu um diálogo mais ou menos assim:
Papai: Eu acho que está saindo fumaça da sua varanda.
Moço: Sim, mas já está tudo bem. Mais ou menos.
E então o homem contou o que acontecera.
Ele trabalha a noite. Pouco antes de sair para trabalhar, ele fez um sanduíche e colocou para esquentar no forno. E aí deu a hora de ele sair, e ele foi embora.
Horas depois, estava ele trabalhando, quando a iluminação despencou sobre ele: o sanduíche! Sai ele correndo do trabalho e percorre todos os quarenta minutos até a casa dele com o desespero de alguém que esqueceu um sanduíche no forno aceso. E quando ele chega em casa e abre a porta, encontra...
Fumaça. Não apenas a fumaça que tinha no nosso apartamento, não a fumaça que meu pai viu no corredor. Porque, quando a fumaça chegou ao nosso apartamento, ele já tinha apagado o fogão há pelo menos meia hora. A fumaça que ele encontrou dentro do apartamento já tinha praticamente vida própria. Era uma fumaça preta sinistra totalmente desproporcional ao tamanho do pão queimado que a causara. E ela tomara o apartamento todo, contaminara cada recanto com seu veneno tóxico.
Obviamente, a primeira coisa que o homem fez foi correr para o fogão e desligar o gás. Curiosamente, nada pegou fogo; a fumaça fora causada apenas pela comida queimada - o que foi uma sorte inacreditável e do tipo que só acontece uma vez na vida. Já vi fogões pegarem fogo por muito menos.
Mas o sanduíche não resistiu aos ferimentos e veio a falecer. Descanse em paz, sanduíche.
Depois daquilo, o homem simplesmente jogou o cadáver do sanduíche fora, abriu todas as janelas da casa, e foi embora. Já estava lá embaixo há quase uma hora quando meu pai o encontrou, e deve ter ficado muito mais tempo. Tudo o que eu sei é que continuou a visivelmente sair fumaça da varanda dele por mais umas duas horas. Se eu fosse ele, teria dormido na garagem e no dia seguinte lavado o apartamento inteiro com cloro. E olhe lá se seria o suficiente.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Os 30 Livros Mais Importantes Para Mim

Ontem foi meu aniversário de 26 anos (apesar de algumas pessoas terem me perguntado se eu estava fazendo 18). Como a gente só faz 26 anos uma vez na vida, decidi que era uma data muito importante e merecia um post comemorativo. Resolvi fazer então uma lista dos 30 livros mais importantes para mim, em ordem cronológica, para que vocês tenham uma ideia melhor dos motivos de eu ser essa pessoa estranha que sou hoje, e possam filosofar em cima disso.
Mas Vitoria por que 30? Por que não 10? Ou 50? Porque eu estou fazendo 26 anos, e dessa forma a lista ainda vai servir para meus próximos 4 aniversários \o/
Mentira, eu ia fazer um top 10 mas no final acabou ficando 30, então deixei assim mesmo. Divirtam-se.

  1. O Menino no Espelho (Fernando Sabino): Eu li esse livro aos 4 anos, e foi o primeiro livro "de verdade" que eu li. Meus avós tinham uma estante cheia de livros, e esse era um deles. Eu era metida a superior e intelectual, e um dos motivos de eu ter lido esse livro foi porque ele era "grande" e eu queria mostrar para todo mundo como eu era inteligente. Por sorte, adorei. Se tivesse sido ruim, talvez eu nunca mais tivesse lido um livro "grande".
  2. A Ilha Misteriosa (Julio Verne): Eu tinha entre 6 e 9 anos quando li esse livro, e para vocês terem uma ideia da importância dele na minha vida, eu só o li uma vez e me lembro da história quase toda. Um dos que me apresentou ao gênero aventura, e também um dos primeiros livros que li que não era infantil. Foi a primeira vez que li um livro de uma faixa etária acima da minha, o que se tornou uma constante nos anos que se seguiram.
  3. Não Olhe Atrás da Porta (Lia Neiva): Livro que me apresentou à literatura fantástica e influenciou profundamente meu estilo de escrita e meus gostos literários. Também foi o primeiro livro de contos que eu li. Todos os contos são de fantasia tendendo para o macabro, e foi o livro que me mostrou que se uma história com final feliz é boa, uma sem final feliz pode ser melhor ainda. Destaque para o conto A Menina que Abraçava o Vento, o qual eu venho tentando reproduzir há muito tempo, sem sucesso.
  4. A Hora das Sombras (Luiz Antônio Aguiar): Quando o reli depois de adulta, percebi que esse livro não tinha nada demais. Mas foi um dos meus livros preferidos durante a minha infância. Foi a primeira distopia que eu li, em uma época em que eu não tinha a menor ideia de que esse termo existia. Também foi a primeira vez em que eu identifiquei alguma referência sexual em uma história.
  5. Histórias Extraordinárias (Edgar Allan Poe): Primeiro livro de terror que eu li. Foi amor à primeira vista. Nunca esquecerei da cara de horror da professora quando fiz um resumo sobre o conto O Gato Preto e apresentei na frente da sala, na 5ª ou 6ª série.
  6. Harry Potter (todos) (J. K. Rowling): Ok, ok, são 7 livros e não 1, mas estou considerando séries inteiras como uma coisa só. Harry Potter me acompanhou dos 13 ou 14 anos em diante, e foi o livro que mais ocupou meus pensamentos durante a minha adolescência.
  7. O Jardim dos Esquecidos (Virginia C. Andrews): Esse livro também faz parte de uma série, mas o único de que gostei foi esse, que é o primeiro. Provavelmente se eu relesse hoje acharia horrível, mas ele foi importante por ter me dado milhares de ideias para cenas e situações que até hoje utilizo na hora de escrever.
  8. Zona Morta (Stephen King): Um dos primeiros livros de Stephen King que eu li, o que é muita coisa. Esse foi um dos meus autores prediletos e marcou muito a minha adolescência. 
  9. Comédias para Se Ler na Escola (Luis Fernando Veríssimo): O primeiro livro que li do meu autor brasileiro preferido. Foi o responsável por me apresentar às crônicas (sem ele, esse blog não existiria). Se eu já consegui fazer alguém rir com alguma coisa que eu escrevi, foi graças a esse livro.
  10. As Brumas de Avalon - todos (Marion Zimmer Bradley): A única versão da história do Rei Artur que eu gosto. Marcou minha fase mística e feminista. Me fez conhecer muita coisa sobre o paganismo. Também foi a primeira vez que eu li uma cena de atração entre dois homens e até hoje lembro dessa cena quando vou escrever alguma fanfic.
  11. Insônia (Stephen King): Naquela época, esse foi de longe o maior livro que eu já tinha lido e proporcionalmente o que eu li mais rápido (mais de 700 páginas em 6 dias), e só isso seria o suficiente para entrar nessa lista. Para completar, aprendi com ele que dá para misturar fantasia louca, magia, crítica social, preconceito, idosos, violência doméstica, feminismo, morte, dimensões paralelas, superpoderes, noites em claro, hospitais e discussões sobre aborto e mesmo assim terminarmos com uma história adulta, interessante e coerente.
  12. O Clube dos Anjos (Luis Fernando Veríssimo): Sinceramente, eu não tenho a menor ideia do porquê desse livro ter entrado nessa lista. Ele me marcou demais, mas eu não sei porquê! Pode ter sido por causa do carinha ex-bonitão ou das pessoas que comem a comida gostosa mesmo sabendo que vão morrer. Enfim, um indício de que a psicopatia já estava presente.
  13. O Grande Mentecapto (Fernando Sabino): Quem me conheceu durante a adolescência, deve ter me ouvido falar pelo menos uma vez nesse livro. Eu o li no mínimo cinco vezes seguidas. Uma obra maravilhosa que não é fantasia mas não se preocupa em nenhum momento em se manter fora do absurdo. E eu só peguei esse livro porque fiquei intrigada com o título...
  14. O Diário de um Mago (Paulo Coelho): Hoje eu não gosto muito dos livros de Paulo Coelho, mas na minha adolescência eu li absolutamente todos os livros dele que já tinham sido lançados. Fiz quase todos os rituais que são descritos nesse livro.
  15. Filha de Feiticeira (Celia Rees): Acho que o que mais gostei nesse livro foi o fato de mostrar uma adolescente que age como adulta com naturalidade. Também me identifiquei intimamente com as cenas em que ela foge para passear pela floresta.
  16. O Guardião (Dean Koontz): Esse livro é inesperadamente bom. Digo inesperadamente, porque a capa é meio estranha (me lembra A Cabana) e eu nunca tinha ouvido falar do autor. Mas foi ele que me fez gostar de histórias envolvendo viagens no tempo e me apresentou ao termo "paradoxo". Também me apresentou à possibilidade de misturar ficção com acontecimentos históricos.
  17. Magos / Encantamentos / Imortais (Isaac Asimov): Esses três livros pertencem na verdade à mesma coleção e são dificílimos de achar. São coletâneas de contos sobre o tema que dá título à cada livro. Mais um da minha época "mística", com eles aprendi muito sobre como escrever literatura fantástica, além de terem me apresentado a vários termos desse universo.
  18. O Alienista (Caleb Carr): Um dos melhores policiais que já li, e do qual eu descaradamente copiei ideias em várias coisas que escrevi. Psicopatas, assassinatos, psicologia, gays e pedofilia. Soa familiar?
  19. O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry): Esse livro é para mim o que a bíblia é para muitos. O li no auge da minha adolescência e reli muitas e muitas vezes. Me dá paz de espírito.
  20. Memorial de Maria Moura (Rachel de Queiroz): Uma mulher que age e pensa como um homem. Que é capaz de matar o homem que ama porque sabe que é o certo a se fazer. Uma história onde existem coisas mais importantes do que a vida e muito piores do que a morte. Influência forte para mim, na escrita e na vida.
  21. Contos de Amor Rasgados (Marina Colasanti): Esse. Livro. *-* Esse foi o livro que me apresentou ao surrealismo e sem o qual contos como A Mulher Perfeita, Naufrágio, A Menina da Água, Lápis, Azul, entre outros, simplesmente não existiriam.
  22. Trilogia Fronteiras do Universo (Phillip Pullman): Aqui começa a fase Livros Lidos na Idade Adulta. Primeira vez que li um livro de fantasia escrito por um ateu. Mas esse livro se tornou muito importante também por outro motivo: foi a primeira vez que li um livro junto com amigos meus. Foi uma das melhores experiências que eu já tinha tido.
  23. O Caçador de Pipas (Khaled Hosseini): Esse livro maldito mexeu tão profundamente comigo que nunca mais quero lê-lo de novo.
  24. A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak): Esse livro lindo mexeu tão profundamente comigo que quero tê-lo para sempre (sim, para mim ele é igual ao Caçador de Pipas só que ao contrário). Ele me fez deixar de ter medo da morte, então sim, ele foi muito importante na minha vida.
  25. O Guia do Mochileiro das Galáxias - todos (Douglas Adams): Livro que me deu novas influências para humor, além da resposta para todas as perguntas do universo.
  26. As Crônicas de Nárnia (C. S. Lewis): O livro religioso/cristão mais incrível que eu já li na minha vida. Conseguiu me fazer olhar com mais simpatia para coisas como religião e monarquia (!) e me deu grandes lições sobre como escrever um livro infantil.
  27. O Evangelho Segundo Jesus Cristo (José Saramago): Livro que me deu uma base mais sólida para questionar e argumentar sobre religião, que me fez pensar muito profundamente em algumas coisas, enfim, um livro que me mudou em muitos aspectos.
  28. Sandman (Neil Gaiman): Vitória isso não é um livro é uma revista em quadrinhos - dane-se. Sandman é mais um que conseguiu mudar minha vida. Simples assim. E a cada vez que eu releio, ele me muda mais um pouquinho. Neil Gaiman, cara. Neil Gaiman.
  29. 1984 (George Orwell): Um dos livros mais pesados que eu já li. Me fez perceber que finais trágicos podem ser levados a um nível muito mais alto do que eu imaginava. Também me deu novas ideias sobre formas de tortura, e me ensinou que o amor não é mais forte do que tudo. E que não, não é só um livro. É a vida.
  30. Coisas Frágeis (Neil Gaiman): Apesar do nível dos contos desse livro variar bastante, alguns deles são maravilhosos e extremamente perturbadores. Me deu grandes influências para contos de terror e surreais.
Muitos livros excelentes ficaram de fora dessa lista, mas eu garanti que aqueles que me marcaram mais, ou me mudaram de alguma forma, estivessem aí.
Fazendo essa lista, uma coisa engraçada que eu percebi é que tem alguns livros que me marcaram muito, mas eu não sei explicar direito o porquê. É engraçado também o fato de a gente ter fases: muita coisa que li  e adorei na adolescência eu simplesmente detestei quando reli depois de adulta.
Outra coisa curiosa é que, quando criança, eu fazia questão de ler livros destinados a pessoas mais velhas. Já depois de adulta, eu tenho lido uma grande quantidade de livros infanto-juvenis. Sinto que existe uma mensagem oculta nisso, mas não consigo captá-la.

* * * * *

Deixo aqui um agradecimento muito especial à Jordana, minha filha adotiva e autora do blog http://addictionforbooks.blogspot.com.br/. Foi ela quem me deu a ideia para um top 10 de livros (em uma corrente facebookiana que eu ainda não repassei), e sem ela esse post não existiria. Muito obrigada Jo-chan, por ter sido a luz na escuridão da minha criatividade. Continue com as suas resenhas, elas estão melhor à cada dia (leiam leiam) \o/

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

[Resenha #010] O Ladrão de Raios (Percy Jackson e os Olimpianos - Livro 1) - Rick Riordan

Resenha também publicada no Skoob. Você pode ler mais sobre o livro clicando aqui.

UM ÓTIMO HERÓI E UMA HISTÓRIA EMPOLGANTE

Percy Jackson sempre teve problemas que o levaram a ser expulso de todas as escolas por onde passou. Com dislexia e déficit de atenção, e cercado por acontecimentos estranhos, ele nunca imaginou que pudesse ser importante para o futuro da humanidade. Mas está prestes a descobrir que sua vida é muito mais do que parece, que sua família esconde segredos que ele nunca imaginou, e que os personagens da mitologia grega são muito mais do que mitos.
Eu li O Ladrão de Raios em uma velocidade inacreditável: foram quatrocentas páginas em dois dias e meio. Acho que isso é o suficiente para afirmar que gostei do livro. Eu não esperava muita coisa da história, talvez por se tratar de um infanto-juvenil; mas ele superou em muito todas as minhas expectativas.
Não há pausas durante o livro. O ritmo é frenético, talvez pelo próprio personagem ser frenético. É uma aventura atrás da outra, um acontecimento inesperado atrás do outro, e as pausas para respirar, quando existem, são curtas. Em alguns momentos acontecem coisas tão absurdas que são engraçadíssimas, mesmo em momentos de tensão.
Falando em coisas absurdas, o livro praticamente não se preocupa em tornar os acontecimentos críveis, ou dar explicações para "encaixar" os elementos absurdos na nossa realidade. Por exemplo: existem deuses mitológicos vivendo até hoje, e pronto. Não existe nenhuma preocupação com as implicações disso, ou com o "como". É mágica, as coisas são desse jeito, nada é impossível. A forma como as pessoas lidam com o absurdo é também bastante irreal: há uma aceitação imediata de tudo, quase nenhum questionamento. O máximo que há é um "nossa, deuses gregos existem, que estranho", e a vida segue normalmente. Essa é para mim uma das melhores características do livro.
Há alguns problemas, claro, mas nenhum que eu considere grave. Certos elementos que deveriam ser surpresa são muito fáceis de serem adivinhados. Quando é dito que um dos amigos irá se tornar um traidor, ou quando alguns enigmas são apresentados, eu descobri muito rápido quem era ou do que se tratava - e eu não sou muito boa em desvendar enigmas. Isso tira um pouco a graça de algumas cenas que deveriam causar surpresa, mas como eu disse, não é um problema grave e essas cenas conseguiram ser empolgantes mesmo assim.
Uma coisa que gostei muito em O Ladrão de Raios foi o personagem principal. Percy é um garoto muito novo que teve uma vida difícil, e por isso mesmo ele tem uma proatividade que é ausente em muitos outros personagens principais de outras obras (como Harry Potter ou Eragon). Ele toma decisões, arruma confusão por vontade própria, tem vontade de lutar, e se mostra um grande guerreiro. Também não há muita preocupação com o politicamente correto, ou com tornar o herói excessivamente "bonzinho" - Percy não é, de jeito nenhum, o "cara bonzinho", e não pensa duas vezes antes de se livrar do jeito que der de quem lhe incomoda. Por outro lado, ele é dono de uma lealdade incontestável aos amigos. Um herói, sim, mas uma pessoa normal. Mesmo ele não sendo totalmente normal.
Não é preciso dizer que recomendo muito a leitura. O Ladrão de Raios é um livro fácil e rápido de ler, com uma história divertida e empolgante, e onde, apesar do ambiente cheio de absurdos, os personagens tem personalidades muito reais. Quem gosta de livros de fantasia, de histórias com muitas aventuras e quer um livro que vá ler muito rápido, não se arrependerá de ler esse.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

[Resenha #009] O Hobbit - J. R. R. Tolkien

Resenha também publicada no Skoob. Você pode ler mais sobre o livro clicando aqui.

Aviso: contém spoilers

LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ

Bilbo Bolseiro é apenas um hobbit, vivendo a típica vida de hobbit em sua bela e confortável toca, até o dia em que o mago Gandalf aparece em sua porta, seguido por treze anões. Eles irão arrastar Bilbo para a maior aventura que algum hobbit já viveu: viajar por grandes distâncias, através de lugares perigosos e desconhecidos, afim de recuperar o tesouro roubado dos anões pelo terrível dragão Smaug.
Comecei a ler esse livro sem ter a menor noção de que se tratava de um livro infantil; por isso, no início a narrativa me desagradou um pouco. Mas logo me acostumei com o jeito de Tolkien contar a história. E é exatamente assim que ele narra: como alguém que pega uma criança no colo e conta uma deliciosa história. A narrativa flui bem, não há muitos momentos de espera, nem passagens cansativas. As descrições da Terra Média são na medida exata para que o leitor consiga visualizar o cenário sem se aborrecer com passagens monótonas ou cansativas.
Embora a história seja fantástica, algumas passagens são um pouco estranhas. Logo no início, a forma como Bilbo acaba aceitando participar da aventura me pareceu um pouco forçada. Da mesma forma, também me pareceu forçada a forma totalmente repentina como a batalha final acontece. Como se o autor tivesse que "fazer mágica" para que certas situações acontecessem. Ou talvez essa sensação seja dada pela narrativa simplificada, própria para crianças.
Por outro lado, a maior parte do livro é simplesmente brilhante. Um dos momentos que mais gostei foi a travessia da Floresta das Trevas. É a partir desse momento que Bilbo começa a realmente importar na aventura, salvando todo o grupo primeiro das aranhas, em seguida dos elfos, até enfim tirar a todos da floresta. É nessa parte da história que o pequeno hobbit se mostra dono de coragem e inteligência - embora ambas só se mostrem em momentos de extrema necessidade.
Outro momento que não posso deixar de citar é quando Bilbo encontra o anel. Toda a sequência, desde que Bilbo desperta sozinho na caverna até o momento em que consegue escapar usando o anel, é fantástica; e a forma - um pouco cruel - como ele ganha o desafio de rimas é uma cena memorável.
Após a saída da floresta, temos afinal o encontro com o dragão e a tentativa de recuperação do tesouro. Daí em diante, todos os acontecimentos prendem o leitor de forma ininterrupta. Embora, como eu disse antes, a forma como o desenrolar das coisas leva até à batalha final seja um pouco estranha, a grande guerra é uma das cenas mais espetaculares do livro. Infelizmente, talvez pela natureza da narrativa, muito pouco é mostrado dessa batalha, e não é mostrado o seu desenrolar final, já que tudo é visto da perspectiva de Bilbo - que fica escondido o tempo todo. E embora alguns personagens morram, a parte trágica da morte é quase completamente apagada - mais uma vez, acredito que isso seja uma exigência da narrativa infantil.
Em resumo, O Hobbit é belíssimo, fácil de ler, com todos os elementos em medidas exatas - ação, aventura, e algumas ótimas doses de humor. Este é um livro que agradará crianças, jovens e adultos em igual proporção, e que deixará o leitor ansioso para ler mais sobre os hobbits e a Terra Média.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Palhaço

Isso aconteceu com a minha irmã, logo a narrativa é dela.

Eu estava sozinha no ponto de ônibus, encostada na mureta que separa a calçada do mar, quando eu vejo, ao longe, um palhaço.
O palhaço estava usando óculos escuros (!) e aqueles sapatos enormes de palhaço. E ele veio vindo na minha direção, andando igual ao Charles Chaplin, só que sem a bengala. A primeira coisa que pensei foi "Ok, normal. Ele deve entrar em algum ônibus pra vender coisa, fazer propaganda, sei lá".
Enquanto via aquele palhaço comecei a me lembrar de um episódio de Supernatural em que o Sam tinha medo de palhaço, e na época eu fiquei me perguntando porquê alguém teria medo de palhaço. Só que sozinha num ponto de ônibus, vendo aquele palhaço vindo na minha direção, e ainda por cima de óculos escuros, eu comecei a achar que ele tinha um pouco de razão. Palhaços podiam mesmo ser um pouco assustadores.
E o palhaço veio se aproximando, se aproximando, e eu pensando "o que será que ele vai fazer?". E ele parou na minha frente, muito perto de mim, praticamente na minha cara, e ficou parado, me olhando. E ele estava com aquela maquiagem de palhaço e os óculos escuros, então eu não conseguia ver a expressão dele, era assustador!
Logo que ele chegou eu levei um susto, e fiquei olhando para ele, e ele continuou olhando um tempão pra mim. E ele era grande, e eu fiquei pensando "ok, esse palhaço de óculos escuros parou aqui bem perto de mim e ficou me olhando, ele vai me agarrar".
Na hora eu achei que ele tinha me confundido com alguém. Só que se fosse uma pessoa normal, na mesma hora ia falar "opa, eu te confundi com alguém, foi mal" e ia embora. Mas não, ele ficou parado ali um tempão, nós dois nos encarando, e eu pensando aimeudeus que que ele vai fazer????.
Depois de muito tempo me encarando, ele me deu dois tapinhas no ombro e saiu. Sem dizer nada. Simplesmente seguiu seu caminho, indo pro outro lado do ponto, e eu fiquei olhando pra frente, pensando "ok, o que foi isso?". Ainda fiquei com medo de que ele pegasse o mesmo ônibus que eu, sentasse do meu lado e ficasse a viagem toda me encarando; mas ele saiu primeiro que eu, e nunca mais o vi.

* * * * *

Essa é a prova de que o dom de atrair coisas estranhas em ônibus (ou pontos de ônibus) é de família.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Menina Não

Meninos não podem gostar de rosa.
Concordando ou não, isso é um fato.
Por outro lado, hoje é normal meninas gostarem de azul. Só que nem sempre foi assim.
E quando eu era criança, não era assim.
Por algum motivo, quando eu era pequena, uma menina gostar de azul (ou simplesmente não gostar de rosa), brincar de carrinho, e não gostar de vestidos nem de bonecas, era uma coisa tão grave quanto um menino brincar de Barbie. Pelo menos era essa a sensação que eu tinha.
Ainda bem pequena, antes dos sete anos, eu era uma menina moleca no sentido mais cru da palavra. Parecia um menino, tanto no comportamento quanto em formas de pensar. Era violenta, gostava de brincadeiras que machucavam, gostava de bater nos outros. Odiava brincar de boneca, e nunca tive uma Barbie. Gostava de qualquer brincadeira que envolvesse correr, escalar, pular, bater, enfim, qualquer coisa que meninos gostassem eu gostava também.
O tempo passou, eu fui crescendo, e esse traço da minha personalidade não se alterou muito, embora tenha se tornado um pouco mais complexo. Eu ouvi tantas vezes que meninas não podiam ser assim, não podiam fazer as coisas que eu gostava, tinham que gostar do que eu não gostava, que chegou a um ponto em que eu não queria mais ser uma menina.
Não era uma coisa que chegava a ser preocupante, mas eu passei a me enxergar como um ser assexuado, mais próximo dos meninos do que das meninas (e até hoje as vezes me confundo e uso termos masculinos para me referir a mim mesma). Havia um porém muito importante do qual falarei depois, mas essencialmente, eu queria ser um menino.
Ser menino era mais legal.
Ser uma menina de menos de doze anos e querer parecer um menino não é uma coisa assim tão difícil, e nem causava tantos transtornos (apenas alguns puxões de orelha e olhares feios de vez em quando). O problema foi quando a adolescência começou a chegar, e eu comecei a ter os malditos problemas de menina.
Criar corpo não foi um grande problema, porque afinal, não mudou muita coisa (lágrimas). O verdadeiro problema é que uma criança desleixada é perdoável, mas uma adolescente sem vaidade não é. Eu não usava nenhuma maquiagem, nem mesmo batom; odiava saias e vestidos; só penteava o cabelo o suficiente para sair na rua e olhe lá; e a única coisa que me importava na hora de escolher uma roupa era o conforto. Na maior parte do tempo, eu parecia uma hippie esquisita.
Minha aparência e meu comportamento escandaloso (e nada feminino) as vezes faziam surgir alguns rumores sobre minhas opções sexuais, que as pessoas achavam que eu ignorava mas que eu sabia muito bem, embora não chegassem a me incomodar (e muitas vezes eu até brincava com isso). E aí entra o "porém" que eu havia dito acima, e que é muito importante para explicar pelo menos em parte o porquê de eu ser assim, e também para chegar a algumas conclusões sobre esse assunto: eu não gostava de meninas.
Por "não gostar", entenda-se ter total aversão a meninas e a qualquer coisa que me relacionasse com elas.
E eu adorava meninos.
Desde as minhas lembranças mais antigas, eu adoro meninos de tal forma que queria desesperadamente ser como eles. Quando se é criança, meninos não andam com meninas - os dois sexos, na verdade, costumam ser inimigos. E eu não queria isso, não queria estar no grupinho das meninas. Eu admirava os meninos, queria brincar com eles, encostar neles, bater neles. Meninas eram chatas, meninos eram legais.
Não faria sentido, portanto, achar que, por eu só andar com meninos, eu era lésbica. Se fossem fazer alguma relação com sexo, deveriam achar que eu era uma maníaca tarada, ou algo parecido.
Enfim. Isso durou boa parte da minha adolescência. Lembro que costumava me referir a mim mesma como um "ser indefinido", querendo dizer que eu era assexuada (o mais bizarro é que conheço várias pessoas que também se dizem assexuada). Quando fiz dezessete anos e fui virando gente, comecei a parar com isso - afinal, os meninos não eram mais inimigos das meninas, e eu podia brincar com eles sem me tornar um menino.
Mas até hoje, ando mais com meninos do que com meninas. Até porque, eu faço um curso em que mais de noventa porcento dos alunos são meninos.
Não importa quanto tempo passe. Sempre acharei os meninos mais interessantes pra brincar.
Sempre.

* * * * *

Eu ando observando, nas minhas peregrinações pela vida, que no geral meninos afeminados acabam se tornando gays, por uma série de fatores complexos demais para eu tentar explicar aqui. Conheço poucas meninas lésbicas e não sou próxima das que conheço, mas conheço algumas meninas que assim como eu eram "menininhos", e assim como eu, nunca chegaram nem perto de ser lésbicas.
Tenho a teoria de que isso acontece porque as mulheres são mais fortes do que os homens. Um menino afeminado sofre bullying e fica traumatizado. Uma menina que parece menino sofre bullying e bate em quem faz bullying com ela. E não está nem aí para o que pensam a respeito.

* * * * *

Hoje eu sou uma menininha fofa que gosta de Hello Kitty e usa lacinho na cabeça.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Dengue - Uma Aventura

Era uma época conturbada. Estava em época de provas finais na faculdade, andava dormindo muito pouco, estudando demais, fazendo muitos trabalhos. Isso acontece todo período, mas é sempre muito estressante. No dia seis desse mês, uma sexta-feira, seria mais um dia agitado: eu tinha uma prova, uma apresentação de trabalho, e tinha que estudar para as provas da semana seguinte.
Mas acabou sendo um dia muito mais agitado do que eu tinha imaginado.
Era de madrugada e eu estava dormindo, até que acordei. Sentindo dor. Acordei por causa da dor e não consegui dormir de novo por causa dela. Não era uma dor em um lugar específico, nem era uma dor normal: era uma dor insuportável, no corpo todo. Também tremia de frio, e ao mesmo tempo suava muito. Minha cabeça doía como se um rolo compressor estivesse passando em cima dela. Eu mal conseguia me mexer, e cada movimento fazia tudo piorar. Parecia que eu estava morrendo. Parecia mesmo que eu estava morrendo.
Um pensamento me veio à cabeça. Eu quis negar. Disse a mim mesma que não era aquilo, que podia ser qualquer coisa. Mas a palavra voltou à minha cabeça. Eu sabia o que era. Sabia desde que abri os olhos e tive a sensação de que estava sendo pisada por um elefante.
Dengue.
Não deve ser, eu disse para mim mesma, diagnóstico de dengue não é uma coisa tão simples assim. Mas não se sente uma dor como aquela por causa de uma gripe. Aliás, não consigo pensar em nenhuma outra doença comum que faça alguém sentir tanta dor. Ok, disse para mim mesma, isso parece mesmo dengue.
E era.
Consegui me manter quieta até de manhã, quando minha irmã acordou. Pedi socorro a ela, e logo meus pais estavam no quarto me acudindo.
À base de remédios, consegui fazer a prova aquele dia (que por sorte foi em trio, caso contrário teria sido um desastre). Mas mandei a apresentação do trabalho pro espaço, e fui para casa, onde fiquei sofrendo o resto do dia.
Só de lembrar disso, sinto a cabeça doer. Quem só teve doenças mais simples e nunca teve dengue não é capaz de imaginar a dor.
O sábado foi ainda pior, e a madrugada de domingo bateu o recorde. Como tenho o estômago fraco, acabei passando mal pelo excesso de remédios (eu estava tomando oitocentos miligramas de paracetamol para a dor). A dor só piorava. Também tinha febre, e a febre não abaixava de jeito nenhum. Meus pais acabaram tomando uma decisão drástica: me levaram para o hospital.
Só que existe uma coisa muito peculiar no tratamento da dengue pelo sistema público: eles não atendem casos de dengue em hospitais. A informação que nos deram foi que, mesmo que você chegue lá literalmente morrendo, eles não te atenderão se for dengue. Por quê? Não sei. Não tenho a menor ideia.
O jeito foi ir para o UPA de Carapina.
Eu não sei se existem UPA's e PA's em outros lugares, então aqui vai uma breve explicação: UPA significa Unidade de Pronto Atendimento (PA é a mesma coisa, sem o "Unidade"), e é como um posto de saúde, mas para atendimentos emergenciais, inclusive fazendo internações em alguns casos. Também podem ser chamados carinhosamente de Portas para o Inferno, Casa dos Desesperados, etc. São um inferno. Ficam estrategicamente localizados nos piores lugares possíveis, têm um atendimento péssimo, vivem lotados, e a impressão que tenho é que os médicos que trabalham ali largaram a faculdade na metade do curso (ou sofrem de amnésia ao pisar ali dentro). E, fora os postos de saúde (que não abrem em fins de semana), são os UPA's que atendem casos de dengue.
Como era domingo de manhã, tive a incrível sorte do UPA de Carapina estar quase vazio. Fui atendida bem rápido, fiz um exame que indicou que eu devia estar mesmo com dengue, me colocaram no soro, me passaram milhares de remédios - inclusive um que eu não poderia de forma alguma tomar em caso de dengue - e me mandaram para casa, dopada.
No dia seguinte, fui ao posto de saúde do meu bairro - aliás, o posto do meu bairro é excelente, e o tratamento que tive lá foi muito bom. E então eu, que sou uma pessoa que nunca vai no médico, de repente me vi em uma peregrinação diária por consultórios. Nos vinte dias em que a dengue durou, eu fiz mais exames de sangue do que devo ter feito na minha vida inteira. Tudo para controlar o nível de plaquetas, que estava a cento e doze (o normal é quatrocentos e pouco).
Não existe um tratamento de verdade para a dengue, com remédios ou coisas do tipo. A única coisa que se pode fazer é beber o máximo de líquido que for possível, e um pouco mais. O médico me mandou beber cinco litros de água por dia, coisa que eu obviamente não consegui - e olha que normalmente eu bebo muita água. Minha irmã e meu pai também pegaram dengue, e como minha irmã não bebe água, ela conseguiu a proeza de ficar muito pior do que eu - as plaquetas foram para oitenta e pouco - e demorou bem mais para se recuperar. Eu, enquanto escrevo isso aqui, já estou melhor mas ainda não estou cem porcento.
O mais engraçado é que a gente descobriu que existem tratamentos alternativos que não são receitados nos postos de saúde, mas que funcionam e não são tão caros. Existe um remédio homeopático chamado Proden, que a minha irmã tomou, que funciona e é muito bom. Existem outros tratamentos à base de plantas que não são "mágica", realmente funcionam. E eles são proibidos de serem receitados em consultórios públicos.
Outra coisa muito legal que descobri é que o paracetamol, apesar de ser muito usado no combate à dor causada pela dengue, é prejudicial ao fígado e pode acelerar processos de dengue hemorrágica. Ou seja, se você estiver só com uma denguezinha (se suas plaquetas não caíram muito) não tem problema tomar, mas se for um caso mais grave e você tomar paracetamol, você pode morrer. Mas no posto eles não falam isso, só falam para evitar tomar em excesso e não explicam o porquê. Muito legal isso.
Além disso, muitos remédios que são contra-indicados em caso de suspeita de dengue não deveriam ser. Você só não pode tomar remédios que causem hemorragia ou que tenham AAS. O Benegripe não tem AAS, ou pelo menos não consta na fórmula, mas ele está nas listas de remédios que não pode tomar. Por quê? Não sei.
Mais uma: enquanto você está com dengue, você não vai saber se você está com dengue. O exame para confirmar só pode ser feito depois de oito dias, e o resultado só fica pronto uns dez dias depois. Ou seja, enquanto você está com os sintomas, eles vão te tratar pressupondo que você está com dengue, e e você só vai saber se teve mesmo dengue quando já estiver curado.
Resumindo tudo: se você estiver com dengue, beba o máximo de líquido que conseguir e um pouco mais. Não tome paracetamol. Vá atrás de tratamentos alternativos. E (e isso serve para qualquer doença) não confie cem porcento nos médicos. Nunca.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Paranoia

O que eu vi hoje no ônibus deve estar no meu top 10 de Coisas Estranhas que Já Vi em um Ônibus.
Eu estava sentada no lado do corredor, e o ônibus estava lotado. Eu estava ouvindo música no fone de ouvido e com pensamentos totalmente aéreos, alheia a tudo ao meu redor, quando por algum motivo olhei para a menina que estava sentada no banco em frente ao meu, de costas para mim.
Não havia nada demais nessa menina. Ela estava sentada do lado da janela, mexendo no celular, e eu não tenho a menor ideia de porquê reparei no que ela estava fazendo. O fato foi que vi que ela estava com uma foto aberta no celular. Achei aquela foto estranhamente familiar, e ainda demorei alguns segundos para perceber por quê: era uma foto dali mesmo, do corredor do ônibus. Mais especificamente, era uma foto de uma menina que estava em pé próxima ao banco.
Pelo ângulo da foto, dava pra perceber que tinha sido tirada de forma bem discreta. Não havia absolutamente nada demais na menina: ela estava com um headphone, vestida de forma comum, tinha uma aparência comum. Enfim, não havia nada que justificasse o fato da menina sentada na minha frente ter tirado uma foto escondida dela dentro de um ônibus. Eu tive a impressão de que a garota estava mandando aquela foto por mensagem para alguém, mas não tenho certeza.
No início, eu só achei a situação inusitada. Depois, eu comecei a pensar nas implicações daquilo. A menina não sabia, mas tinha uma foto dela no celular de um estranho. Ela não tinha a menor ideia de quais eram as intenções daquela pessoa ou o que ela pretendia com aquela foto. E se aquilo acontecera com ela, podia acontecer com qualquer um.
Imagine se você está andando na rua e alguém tira uma foto sua, sem que você perceba.
Nesse exato momento, podem existir fotos suas espalhadas pelos celulares e computadores de pessoas que você nunca viu.
E não estou falando de fotos de facebook, previamente selecionadas para ficar minimamente apresentáveis. Estou falando de fotos que você nem sabe que tirou. Fotos que talvez sejam daquele tipo que você pede para a pessoa que tirou deletar imediatamente.
E elas estão nas mãos de pessoas que você nem sabe que existem. Talvez sendo mostradas para outras pessoas que você nunca viu.
Você não faz a menor ideia do que essas pessoas vão fazer com essas fotos.
Ou o que estão comentando dessas fotos.
Talvez estejam fazendo rituais satânicos usando suas fotos. Talvez algum tipo de grupo de elite esteja usando sua foto, tirada em um momento qualquer do dia, como um exemplo de "como não se vestir", ou coisa pior. Talvez algum maníaco tenha se apaixonado por você e tenha uma foto sua como papel de parede no computador dele. Talvez alguém esteja pensando em te sequestrar, e esteja tirando fotos suas nos seus trajetos diários, para preparar uma armadilha para você. Ou talvez estejam simplesmente tirando fotos suas, nas mais variadas situações, por qualquer outro motivo bizarro e desconhecido.
Paranoia?
Talvez.
Mas todo dia você vê pessoas mexendo no celular do seu lado. E você não tem a menor ideia do que elas estão fazendo.
Elas podem estar tirando fotos suas.
E você não tem a menor ideia do que elas vão fazer com essas fotos.
Ou quem vai ver essas fotos.
Ou - e muito pior - como você saiu nessas fotos.
Talvez seja paranoia. Mas acho que, depois disso, eu nunca mais vou ficar confortável próxima a estranhos segurando celulares.