Ele dá alguns passos e cai. Ele já sabe ficar de pé. Ele olha e sorri. Seus olhos riem, seus grandes olhos esverdeados riem pra mim. Eu não sou sua mãe, mas às vezes te amo como se fosse. Às vezes, você é um estranho pra mim. Eu sussurro em seu ouvido um "De onde você veio?", e seus grandes olhos verdes me respondem "de longe, muito longe".
Ah, bebê... Eu sou nova demais, mas sou mais velha do que sua mãe. Um dia você talvez ache os dezesseis anos que te separam dela muito pouco, mas hoje não. Hoje, ela é uma adulta. Hoje ela é tudo para você, e você a chama de mamãe. E hoje você me chama de tia.
"Titia". Quem, eu? Não, bebê, não sou sua tia. Mas você insiste. Você tenta dizer meu nome, mas não consegue. Então, me chame de tia. Para que um nome, se em uma palavra já está dito tudo?
Agora, você já anda. Você corre e fala. E ontem você disse meu nome. Você disse o meu nome. Por que você sorri pra mim? Talvez, no fundo, você me ame. Será que você sabe o que é o amor? Não, mas você não precisa saber pra sentir.
E agora eu vi você chorar. Chora, bebê, chora, porque seu pai está longe. Ele vai voltar, ele sempre volta, mas você não sabe disso. Então chora, porque a vida é triste e o mundo é injusto.
Um dia, eu sei, você vai me achar velha demais pra dizer qualquer coisa. Mas, enquanto esse tempo não chega, me escuta. Eu te amo, bebê. Se os anjos existissem, você seria um deles. Eu amo o seu sorriso e os seus olhos verdes. Você pode um dia chorar, mas, por favor, nunca esqueça como sorrir.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
sexta-feira, 22 de junho de 2007
Contos Urbanos
Terça-feira. Ônibus tão cheio que, a cada passageiro que entra, dois caem pela janela. Um calor escaldante ao sol, um frio cortante à sombra. Um vendedor de balas, ex-viciado convertido ao cristianismo. Um dia normal.
Há gritos de protesto quando o motorista pára pela décima primeira vez em um ponto, atendendo ao pedido de uma mulher que, de longe, parecia duas. O ônibus pára, entra a mulher, cinco são lançados pela janela. Antes que a porta se feche, entra uma garotinha. A viagem prossegue.
Três pontos depois, a mulher desce, e o ônibus respira. Fica a garotinha. As atenções se voltam para ela. É loirinha, minúscula, olhos azuis e roupinha rosa. Balança de um lado para o outro até que um homem - que pode ser um pai de família, um padre ou um pedófilo - oferece seu colo, onde a menina prontamente se acomoda.
Onde está sua mãe?, pergunta o homem. Em casa, responde a garotinha. E seu pai? Também. Para onde você vai?, pergunta a mulher ao lado. Para a casa da minha avó. Onde ela mora? Daqui há quatro pontos. Sua mãe deixa você ir sozinha?, pergunta o vendedor de balas. Deixa. Quantos anos você tem? Sete.
Quanto mais perguntam, mais feliz fica a garotinha. A mãe é advogada, o pai é médico, o avô morreu, a avó é aposentada e mora sozinha. Na hora de descer do ônibus, a garotinha ganha beijos de todos e um pacote de balas.
Esta história tem dois finais possíveis:
Final 1: a garotinha desce do ônibus e vai, feliz, com seu pacote de balas, para a casa de sua avó, onde vê tv, brinca de boneca e vive feliz para sempre.
Final 2: a garotinha desce do ônibus, o homem que a colocou no colo desce logo depois, vai atrás dela, a encontra perto da casa da avó, a leva para um terreno baldio, a estupra, a mata, joga seu corpo no rio e vai para casa levar a mulher e os filhos à igreja.
Escolha um dos dois, a seu gosto.
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Sob o Céu da Tarde
Hoje, o céu atrás da minha casa está mais bonito do que o normal. Está azul, como poucas vezes tem estado. Na frente não. Não fosse pelos riscos de nuvem que surgiram agora, ele estaria pálido como um quadro manchado de giz.
As pessoas que gostam de olhar o céu são boas. Conforme o sol desce as nuvens se adensam, mas ainda não encobrem o azul. O céu de trás de casa parece ter escorrido para a frente e para os lados, e agora todo ele está azul como é ao amanhecer - mas o dia agoniza.
As nuvens parecem ter um brilho prateado, e uma luz dourada tinge suas bordas de rosa. O dia morrendo trás consciência a quem está vivo e medo a quem espera.
É mais bonito quem carrega o céu nos olhos. Depois que anoitece, o céu não tem a mesma luz do pôr-do-sol. As nuvens brancas lembram um quadro pintado há muito tempo e que não existe mais. Há um tempo atrás esperava, hoje apenas corro. Um dia, espero, voarei.
Poucas crianças gostam de olhar o céu. Crianças são como pássaros, se acostumam com o que há de mais belo. Quando o céu goteja e a neblina sobe, o dia inteiro silencia.
O céu escureceu. Não fosse a lua cheia, nada haveria nessas linhas. O sol se foi, já não há céu sobre esta casa; nada a fazer, a não ser esperar que o tempo o traga de volta.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Poema
Poema de minha autoria, criado em 29 de março de 2006.
Luto
Não procure rosas onde só há espinhos
A morte traz dor e desfaz caminhos
Não há amor onde escorre desejo
O que eu digo eu sei, eu ouço, eu sinto, eu vejo.
Não procure a lua com o céu nublado
É melhor amar do que ser odiado
Tem dias em que chove e o vento é forte
Poucas coisas são piores do que a morte.
Só se vista depois que amanhecer
A vida não deixa nosso filho nascer
Não peça perdão antes de pecar
Se Deus não existe, não adianta rezar.
Procure ir embora antes que eu cresça
Acender velas antes que anoiteça
A vida é curta mas dura até o fim
Queria encontrar algo seu em mim.
Não procure rostos com a luz acesa
Não deixe as flores mortas sobre a mesa
A porta em que passastes se fechou
É difícil acreditar que acabou.
Não plante sementes sob o vento sul
Não verá estrelas com o céu azul
Não vi mais, pois a dor a vista cerra
Não enxergo mais seu corpo sob a terra.
Não procure rosas onde só há espinhos
A morte traz dor e desfaz caminhos
Não há amor onde escorre desejo
O que eu digo eu sei, eu ouço, eu sinto, eu vejo.
Não procure a lua com o céu nublado
É melhor amar do que ser odiado
Tem dias em que chove e o vento é forte
Poucas coisas são piores do que a morte.
Só se vista depois que amanhecer
A vida não deixa nosso filho nascer
Não peça perdão antes de pecar
Se Deus não existe, não adianta rezar.
Procure ir embora antes que eu cresça
Acender velas antes que anoiteça
A vida é curta mas dura até o fim
Queria encontrar algo seu em mim.
Não procure rostos com a luz acesa
Não deixe as flores mortas sobre a mesa
A porta em que passastes se fechou
É difícil acreditar que acabou.
Não plante sementes sob o vento sul
Não verá estrelas com o céu azul
Não vi mais, pois a dor a vista cerra
Não enxergo mais seu corpo sob a terra.
sábado, 12 de maio de 2007
Um Pouco Para Minha Mãe
Ainda hoje me lembro de quando tinha três ou quatro anos, e só dormia se minha mãe estivesse do meu lado. Não era medo de escuro, muito menos carência: era o medo, o maior de todos os medos, de que ela desaparecesse.
Por que ela desapareceria? Não sei hoje, e sabia bem menos naquela época. Mas certos medos não precisam de um porquê. Eu tinha medo de que, durante a noite, a escuridão engolisse minha mãe e a levasse para algum lugar distante. Mesmo dormindo ao lado dela, abraçada a ela, eu achava que ela poderia sumir a qualquer momento, me deixando sozinha para sempre.
Naquela época, ela sempre cantava para mim dormir. A vóz dela era a mais bonita de todas, e tinha uma espécie de magia que me levava para outros mundos. Havia uma canção, da qual me lembro até hoje, que falava sobre Nossa Senhora, a Mãe do céu. Para mim, a mãe da canção não era a santa, e sim a minha mãe. Porque minha mãe era a mais bonita de todas as santas do céu, e eu sabia que ela era um anjo, que viera à Terra tomar conta de mim.
Isso foi há muito tempo. E há muito tempo eu não durmo ao lado de minha mãe, e ela não canta mais para mim. Muitas coisas mudaram, comigo e com a gente. Às vezes nós brigamos, às vezes ficamos dias sem nos ver. Eu passo dias fora de casa, e só a vejo nos fins de semana. Já estou grande demais para chorar no colo dela, orgulhosa demais para pedir ajuda, ocupada demais para dar atenção.
Mas... Não sei se ela sabe que eu me lembro de cada momento ao lado dela, de tudo o que ela fez por mim. E ainda hoje, antes de dormir, eu fico pensando se ela não vai desaparecer durante a noite. Às vezes, tenho vontade de ir ao quarto dela, de ver como ela está, se está tudo bem. Mas não vou, sou orgulhosa. Não quero que ela saiba o quanto eu preciso dela, e tenho quase certeza de que ela não precisa de mim.
Se um dia ela for embora, eu não sei o que vai ser de mim. Porque ela é forte, mas eu não tenho quase nada da força dela. Eu sou fraca, muito fraca. E mesmo assim quero cuidar dela, quero protegê-la. Eu a vejo tão cansada, fazendo tanto por mim, e me pergunto se vou conseguir fazer tudo o que quero por ela.
Tudo, sinceramente, tudo o que eu faço é pensando principalmente nela. Se hoje eu passo o dia estudando, se eu me mato para conseguir dinheiro, se eu quero ser a melhor no que eu faço, é pensando nela. Meu maior sonho é poder dar a ela a vida que ela merece, dar a ela muito mais do que ela espera ter. E meu maior medo é que eu nunca consiga fazer isso.
Ela talvez não acredite que eu queira realmente isso. Mas ela não sabe o quanto eu a amo, e o quanto eu agradeço a ela por tudo. E eu juro, por tudo o que existe, que nunca vou abandoná-la. Talvez, às vezes, eu pareça distante, e talvez até me afaste; mas não vou abandoná-la nunca.
Por que ela desapareceria? Não sei hoje, e sabia bem menos naquela época. Mas certos medos não precisam de um porquê. Eu tinha medo de que, durante a noite, a escuridão engolisse minha mãe e a levasse para algum lugar distante. Mesmo dormindo ao lado dela, abraçada a ela, eu achava que ela poderia sumir a qualquer momento, me deixando sozinha para sempre.
Naquela época, ela sempre cantava para mim dormir. A vóz dela era a mais bonita de todas, e tinha uma espécie de magia que me levava para outros mundos. Havia uma canção, da qual me lembro até hoje, que falava sobre Nossa Senhora, a Mãe do céu. Para mim, a mãe da canção não era a santa, e sim a minha mãe. Porque minha mãe era a mais bonita de todas as santas do céu, e eu sabia que ela era um anjo, que viera à Terra tomar conta de mim.
Isso foi há muito tempo. E há muito tempo eu não durmo ao lado de minha mãe, e ela não canta mais para mim. Muitas coisas mudaram, comigo e com a gente. Às vezes nós brigamos, às vezes ficamos dias sem nos ver. Eu passo dias fora de casa, e só a vejo nos fins de semana. Já estou grande demais para chorar no colo dela, orgulhosa demais para pedir ajuda, ocupada demais para dar atenção.
Mas... Não sei se ela sabe que eu me lembro de cada momento ao lado dela, de tudo o que ela fez por mim. E ainda hoje, antes de dormir, eu fico pensando se ela não vai desaparecer durante a noite. Às vezes, tenho vontade de ir ao quarto dela, de ver como ela está, se está tudo bem. Mas não vou, sou orgulhosa. Não quero que ela saiba o quanto eu preciso dela, e tenho quase certeza de que ela não precisa de mim.
Se um dia ela for embora, eu não sei o que vai ser de mim. Porque ela é forte, mas eu não tenho quase nada da força dela. Eu sou fraca, muito fraca. E mesmo assim quero cuidar dela, quero protegê-la. Eu a vejo tão cansada, fazendo tanto por mim, e me pergunto se vou conseguir fazer tudo o que quero por ela.
Tudo, sinceramente, tudo o que eu faço é pensando principalmente nela. Se hoje eu passo o dia estudando, se eu me mato para conseguir dinheiro, se eu quero ser a melhor no que eu faço, é pensando nela. Meu maior sonho é poder dar a ela a vida que ela merece, dar a ela muito mais do que ela espera ter. E meu maior medo é que eu nunca consiga fazer isso.
Ela talvez não acredite que eu queira realmente isso. Mas ela não sabe o quanto eu a amo, e o quanto eu agradeço a ela por tudo. E eu juro, por tudo o que existe, que nunca vou abandoná-la. Talvez, às vezes, eu pareça distante, e talvez até me afaste; mas não vou abandoná-la nunca.
terça-feira, 1 de maio de 2007
Um Dia, ou Não
Dia desses entrei numa loja de lingerie. Não tenho esse hábito, mal uso sutiã, mas, enfim, entrei. Só por entrar. E tinha muito o que olhar. Fora uma ou outra coisa ridícula, como lingerie com estampa de oncinha ou zebra, tudo ali era lindo.
Estava prestes a comprar um conjunto completo de lingerie, o mais lindo que eu já tinha visto, com direito a tudo mesmo, quando me lembrei de um detalhe: eu nunca vou usar isso (quando digo nunca, me refiro aos próximos seis meses). E, se eu usar, ninguém vai ver. Por que eu gastaria, sei lá, cinquenta, oitenta reais numa coisa que ninguém vai ver?
Deixei a lingerie na loja. Mas fiquei pensando nessas coisas. Eu poderia comprar uma lingeire, ou duas, ou dez. Poderia usar roupas sexys e provocantes. Poderia comprar uma caixa de camisinhas. Mas pra que?
Pra que? Eu nunca vou usar nada disso. Está certo, tem gente que compra a primeira camisinha aos cinco anos e guarda até poder usar. Mas eu não sei se um dia vou usar. Por quê? Sei lá. Acho que vou morrer virgem.
Não, não é meu objetivo morrer virgem. Pelo contrário. Mas sei lá, acho que é meu destino. Enfim, estou com dezenove anos. Vamos esperar até os vinte. Se até lá eu ainda não tiver comprado uma lingerie, não comprarei nunca mais. Vamos ver.
Estava prestes a comprar um conjunto completo de lingerie, o mais lindo que eu já tinha visto, com direito a tudo mesmo, quando me lembrei de um detalhe: eu nunca vou usar isso (quando digo nunca, me refiro aos próximos seis meses). E, se eu usar, ninguém vai ver. Por que eu gastaria, sei lá, cinquenta, oitenta reais numa coisa que ninguém vai ver?
Deixei a lingerie na loja. Mas fiquei pensando nessas coisas. Eu poderia comprar uma lingeire, ou duas, ou dez. Poderia usar roupas sexys e provocantes. Poderia comprar uma caixa de camisinhas. Mas pra que?
Pra que? Eu nunca vou usar nada disso. Está certo, tem gente que compra a primeira camisinha aos cinco anos e guarda até poder usar. Mas eu não sei se um dia vou usar. Por quê? Sei lá. Acho que vou morrer virgem.
Não, não é meu objetivo morrer virgem. Pelo contrário. Mas sei lá, acho que é meu destino. Enfim, estou com dezenove anos. Vamos esperar até os vinte. Se até lá eu ainda não tiver comprado uma lingerie, não comprarei nunca mais. Vamos ver.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Opinião Prática Sobre a Solidão
Não é bom ficar sozinho.Eu, pelo menos, não gosto.
Não falo de ficar sozinho fisicamente. Falo de quando estamos no meio de um monte de gente, mas mesmo assim estamos sozinhos. Há uma bolha à nossa volta, um vácuo dentro da gente.
Bom, não é. Mas às vezes é útil. A solidão é um mal necessário e etc e tal. Já me disseram isso tantas e tantas vezes que enjoei. Mas é verdade. Grandes coisas são feitas quando estamos sozinhos. Os gênios criam suas obras primas em momentos de solidão. Eu escrevo em momentos de solidão (será que sou um gênio?). A solidão é necessária.
Está certo, muitas pessoas não fazem nada quando estão sozinhas. Mas aposto que, um dia, vão fazer. Ah, é, muitas pessoas se matam nesses momentos. Mas quem disse que isso não é uma coisa boa? E já vi cartas de suicídio que mereciam um Nobel de literatura. A solidão é muito inspiradora.
Quem está sozinho talvez não concorde comigo. Ninguém quer passar por isso. Eu, pelo menos, não quero. Preferia estar feliz do que escrever grandes textos (ou pequenos, tanto faz). Mas, enfim, assim é a vida. Só nos resta fazer com que, dos piores momentos da nossa vida, saiam grandes obras. Ou, pelo menos, as melhores de que somos capazes.
Não falo de ficar sozinho fisicamente. Falo de quando estamos no meio de um monte de gente, mas mesmo assim estamos sozinhos. Há uma bolha à nossa volta, um vácuo dentro da gente.
Bom, não é. Mas às vezes é útil. A solidão é um mal necessário e etc e tal. Já me disseram isso tantas e tantas vezes que enjoei. Mas é verdade. Grandes coisas são feitas quando estamos sozinhos. Os gênios criam suas obras primas em momentos de solidão. Eu escrevo em momentos de solidão (será que sou um gênio?). A solidão é necessária.
Está certo, muitas pessoas não fazem nada quando estão sozinhas. Mas aposto que, um dia, vão fazer. Ah, é, muitas pessoas se matam nesses momentos. Mas quem disse que isso não é uma coisa boa? E já vi cartas de suicídio que mereciam um Nobel de literatura. A solidão é muito inspiradora.
Quem está sozinho talvez não concorde comigo. Ninguém quer passar por isso. Eu, pelo menos, não quero. Preferia estar feliz do que escrever grandes textos (ou pequenos, tanto faz). Mas, enfim, assim é a vida. Só nos resta fazer com que, dos piores momentos da nossa vida, saiam grandes obras. Ou, pelo menos, as melhores de que somos capazes.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Uma Outra Estação
Antigamente eu gostava do verão. Gostava também das outras estações, mas o verão era a minha favorita. Verão era sol, praia, gente, música. Passar horas dentro do mar e levar um bronca por estar pegando o sol de meio-dia. Verão era bom porquê era verão.
Hoje o verão é a única estação que eu detesto. Por quê? Simples: porque verão é sol, aquele sol que deixa a pele ardendo, aquele calor infernal. Verão é praia, praia suja, lotada, cheia de gente sem noção e de carros tocando música baiana no último volume. Verão é gente, muita gente, um bando de turistas sem a mínima educação que viram a cidade de cabeça para baixo. E, claro, verão é música, axé, pagode, samba, funk, música ruim tocada no último volume por pessoas que não estão nem aí se tem gente que precisa dormir ou que não gosta desse tipo de som. Ah, não posso esquecer das crianças, que nunca obedecem quando você manda não sair no sol de meio-dia. Verão é ruim porquê é verão.
Confesso que queria continuar sendo como antigamente. Ter aquela visão simplista, ver sempre o lado bom de tudo. Mas algo mudou. Talvéz o ponto de vista. Esses dias me vi sonhando com uma praia deserta, só para mim, com aquela areia branca e a água muito azul, tendo como trilha sonora uma bela música instrumental. Hoje, minha estação preferida é a primavera, eu acho.
O que significa essa mudança? Crescimento? Acho que não. Conheço pessoas que cresceram antes de mim e que continuam gostando do verão - e de tudo o que ele representa. E é verdade que essa não foi a única coisa que mudou em mim. Acho que passei por uma melhoria interna, seja lá o que isso for. Antes eu gostava daquilo que a maioria gostava, hoje eu gosto daquilo que quero gostar. O que quer que isso represente, me sinto melhor. Pelo menos estou agradando mais a mim do que aos outros.
Hoje o verão é a única estação que eu detesto. Por quê? Simples: porque verão é sol, aquele sol que deixa a pele ardendo, aquele calor infernal. Verão é praia, praia suja, lotada, cheia de gente sem noção e de carros tocando música baiana no último volume. Verão é gente, muita gente, um bando de turistas sem a mínima educação que viram a cidade de cabeça para baixo. E, claro, verão é música, axé, pagode, samba, funk, música ruim tocada no último volume por pessoas que não estão nem aí se tem gente que precisa dormir ou que não gosta desse tipo de som. Ah, não posso esquecer das crianças, que nunca obedecem quando você manda não sair no sol de meio-dia. Verão é ruim porquê é verão.
Confesso que queria continuar sendo como antigamente. Ter aquela visão simplista, ver sempre o lado bom de tudo. Mas algo mudou. Talvéz o ponto de vista. Esses dias me vi sonhando com uma praia deserta, só para mim, com aquela areia branca e a água muito azul, tendo como trilha sonora uma bela música instrumental. Hoje, minha estação preferida é a primavera, eu acho.
O que significa essa mudança? Crescimento? Acho que não. Conheço pessoas que cresceram antes de mim e que continuam gostando do verão - e de tudo o que ele representa. E é verdade que essa não foi a única coisa que mudou em mim. Acho que passei por uma melhoria interna, seja lá o que isso for. Antes eu gostava daquilo que a maioria gostava, hoje eu gosto daquilo que quero gostar. O que quer que isso represente, me sinto melhor. Pelo menos estou agradando mais a mim do que aos outros.
domingo, 11 de fevereiro de 2007
As Crônicas da Vida: o Balão, a Espuma e o Algodão-Doce
Eu não gosto de balão. Nunca gostei. Me lembro de que, ainda criança, a simples visão de um balão me causava arrepios. Não entendia como podiam enfeitar as festas de aniversário com aqueles seres monstruosos! De longe, eram até bonitinhos: leves, coloridos... Mas de perto eram horríveis. Aquela espécie de plástico, com uma textura irritante, que fazia um barulhinho detestável quando segurávamos... Pior ainda era quando ele estourava. Não sei como nunca morri do coração. Perdi a conta das vezes em que um balão estourou nas minhas pobres mãozinhas. Eu, inocente, ia toda feliz pegar aquele balão que caíra no chão e, assim que encostava, ele explodia como uma bomba, me levando às lágrimas.
Também não gosto de espuma, daquelas que se formam no suco. Enquanto os seres normais a adoram, eu passo horas soprando o café ou o que quer que seja, na esperança de que as bolhinhas desapareçam. Suco com espuma? Só de canudinho. Aliás, o canudinho é a minha salvação. Sem ele, nada de vitamina ou coisa do tipo.
Mas nada é pior do que o algodão-doce. Esse é meu trauma mais inexplicável. Não é que eu não gostasse: eu tinha medo dele. Medo. Terror. Pânico. Desde bebê. A primeira vez que vi um de perto, quase tive um treco. Ele era quase do meu tamanho! Parecia uma nuvem gigante, prestes a me engolir... E quando começava a derreter? Ia se desfazendo, grudando em tudo, caindo em cima de mim... Traumático.
Hoje, controlo melhor os meus traumas. Consigo segurar um balão, sem problemas, por até cinco minutos. Também já consigo me controlar para não ter uma crise de choro quando ele estoura na minha mão. O problema com algodão-doce, eu cheguei bem perto de superar: comi um pedaço de um, aos doze anos. Hoje consigo chegar perto e até segurar um sem grandes problemas. Quanto à espuma... Hoje eu disfarço melhor, mas não tomo nada com espuma, nem que minha vida dependa disso. Mas vou me livrar desse trauma também, é só questão de tempo. Tenho certeza de que, um dia, serei uma pessoa normal. Um dia.
sábado, 27 de janeiro de 2007
Um Pouco Sobre o Amor
Existe uma coisa mais forte do que qualquer lei. Muito mais forte do que qualquer casamento. Algo que cria. Algo que destrói. Algo que, sozinho, pode mudar alguém. Pode matar alguém.
Essa é a única coisa que pode sobreviver com o tempo. Todo o resto se vai, ele fica. Os pais se vão. Os filhos se vão. Nós vamos. Mas ele fica. Firme, forte, líquido.
Líquido. Ele é como a água. Assume a forma daquilo que o contém, seja um amante ou um amigo. A substância é a mesma, nós é que a enxergamos diferente.
Vai-se o desejo. Vai-se a beleza. Mas ele fica. Vai-se o casamento. Ou talvéz nunca venha - o casamento é uma forma de escravidão. Ele não é escravo. Ele é livre, tem asas, voa.
Pobre daqueles que não o veem, ou que fogem dele. Pobre daqueles que têm medo de prender-se. Pobres daqueles que têm medo dos filhos. Esses jamais serão livres.
Nunca renegue alguém a quem você se entregou. Quando estiver prestes a ir embora, quando a porta estiver aberta, lembre-se que um dia o sol vai se pôr. Lembre-se que mais tarde vai chover - e talvez você não tenha um lugar para onde voltar.
Lembre-se que você também chora. Lembre-se que você tem um pai. E se lembre do seu filho - mesmo que não o conheça. Porque, um dia, você vai precisar de um dos dois - e talvez não tenha nenhum.
Quando ele se vai, não volta mais. A partida é mais eterna do que a morte. Enquanto ele existir, há perdão. Mas, quando se vai, só resta o silêncio. O frio.
Ele não se acaba sozinho, nós é que o matamos. Nós o trocamos pelo dinheiro. Pela preguiça. Por uma festa. Jogamos ele fora a troco de nada, por medo de envelhecermos.
Envelheça. Nós não duramos para sempre. E não, você não é um adolescente. Nem aquela pessoa ao seu lado - então pare de fingir. Não jogue fora uma vida por causa de uma noite. Não deixe seu filho esperando sozinho - esteja sempre ao lado dele. E se lembre de quem te ajudou a fazê-lo: essa pessoa precisa de você mais do que você imagina.
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